[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 07



Capítulo 07


Ao invés de contornar a situação, amenizar o impacto da infeliz fala Júlia manteve aquilo que disse reafirmando ainda mais acidamente:
— O que você ouviu! Olhe para você Gustavo, bonito, educado, teria a garota que quisesse se rastejando aos seus pés, implorando pela sua companhia. Mas não, prefere uma cega, alguém que pode prejudicar a sua reputação, ofuscar o seu status!
— Eu não consigo acreditar no que estou ouvindo — o moreno se indignava mais a cada palavra proferida: — Eu não imaginava que a sua mente fosse tão fechada, tão preconceituosa. O simples fato de Gabriela não enxergar a condena em uma eterna solidão? A viver com o desprezo do mundo?
— Essa é a realidade, meu querido, ninguém gosta de defeituosos — a loira não poupava ofensas.
— Defeituosa é você que possui uma mente tão antiga, tão ultrapassada.
— Você deveria ser o meu namorado, o MEU!
Rindo desacreditado Gustavo retrucou:
— Acha mesmo que sou capaz de gostar de pessoas como você? Com o seu modo de agir e ver as coisas? Gabriela é simplesmente uma amiga, mas com certeza eu namoraria com ela, mesmo sendo uma defeituosa segundo as suas palavras, sabe por quê? Porque ela é ainda mais linda por dentro, uma beleza que você não possui e que por certo jamais terá.
— É o que está por fora que deveria interessá-lo.
— O que está por fora acaba, se corrompe, o que está por dentro é eterno — dando às costas àquela que agora veria como inimiga Gustavo interrompeu os passos e voltando os olhos sobre a garota mandou o seu ultimato:
— A propósito, fique longe de mim, não me importune mais. Também faça um favor à Gabriela e a deixe em paz, ela não precisa da sua amizade.
Feita por menos, humilhada, ridicularizada, foi assim que Júlia  se viu, mas é claro que ela não se daria por vencida, consigo mesmo ela falou:
— Ainda virá atrás de mim feito um cachorro.

<<>> 

Naquele novo dia que se iniciara, durante a aula, Gustavo combinou com aquela que encantava os seus olhos de ir à biblioteca da cidade, um lugar que a garota nunca fora, mas que tinha muita vontade de conhecer. Logo após o almoço, querendo aproveitar ao máximo a tarde que prometia ser a melhor de sua vida, o futuro pediatra buscou Gabriela em sua casa, prometendo à mãe da menina que cuidaria muito bem dela. A biblioteca não era tão longe, dava para ir andando.
— Três andares com escadas rolantes, ar condicionado para ofuscar o calor, mesas de madeira com bancos estofados, estantes gigantes com muitos livros, uma iluminação agradável e um silêncio gostoso, pessoas concentradas em suas leituras, casais apaixonados lendo juntos algum romance e pufs em alguns cantos do prédio, fora os computadores prontos para uso — Gustavo descreveu todo o lugar para a amiga logo que ali entraram, usando um tom de voz mais baixo.
— Computadores? — a garota se espantou —. Pensei que fosse uma biblioteca...
— Digamos que é uma biblioteca moderna, afinal de contas vivemos na era da tecnologia, ela precisava evoluir.
— Entendo... E esse cheiro? — ela percebeu o ar diferente.
Respirando fundo de olhos fechados o rapaz respondeu:
— É dos livros, característico daqui. Em qual seção você quer ir?
— Seção?                          
— Romance, aventura, ficção científica, drama...
— Romance — a garota o interrompeu antes que terminasse —. É do que mais gosto — ela não pôde deixar de se lembrar do misterioso Romântico Anônimo.
A forma como Gabriela anunciou a sua escolha fez Gustavo entrar em um ligeiro transe, observando melhor as íris azuis o deixaram extasiado.
—Então vamos — ele voltou em si começando a passear, quando percebeu que deixar a menina para trás se envergonhou —. Desculpe a minha lerdeza — seu tom de voz era divertido. Ainda que de forma retraída,  pegou na mão de Gabriela perguntando em seguida: — Podemos ir?
— Claro — ela tinha no rosto um sorrido diferente.
A garota não sabia explicar o que sentia, nem por que sentia, mas o toque de Gustavo era uma sensação diferente, uma paz ao seu peito, a voz suave do garoto era agradável aos seus ouvidos que desejavam ouvir mais daquele som.
Conforme andavam o rapaz percebeu algo que até então esteve oculto na sua percepção sobre Gabriela: o perfume adocicado de maracujá, um perfume penetrante no mesmo tempo que envolvente.
— A Escolha, Como eu era antes de você, Querido John, O Amigo... — o futuro pediatra lia os títulos das obras para a amiga que atenta tentava escolher algum.
— O Amigo fala sobre o quê? — a garota indagou.
— Isso é com você — Gustavo guiou as mãos da menina na contra-capa do livro —. Essa é a sinopse, mas só você pode ler.
Era em braile. Pigarreando delicadamente, Gabriela começou:
— Laura era uma garota tímida, bastante retraída, que ao se mudar para a nova escola sente uma ansiedade fora do normal, um medo em não ser aceita. Porém Eduardo a vê como alguém gentil, alguém interessante, alguém que faz o seu coração acelerar e seus pensamentos ficarem abobados. Ele, então, decide se aproximar, conquistá-la aos poucos e envolvê-la com o seu amor — ouvindo a leitura Gustavo percebeu semelhança entre a história e suas emoções, Gabriela poderia ser a garota do livro e ele o rapaz que a deseja amavelmente —. Os jovens adolescentes se permitirão ao tão nobre sentimento? — a garota abraçou o livro no peito abrindo o sorriso que sempre encantava o seu admirador —. Vou levar esse.
— Ótima escolha — o rapaz respondeu suave, bobo, perdido naquele sorriso branco e perfeito, admirado por aquela pele clara e macia —. Quero muito saber como a história vai terminar.
— Dê-me a sua mão — em pé, no corredor entre as estantes da seção de romance, Gabriela surpreendeu Gustavo com o pedido que logo foi atendido: — Perceba a delicadeza dos pontinhos — ela o ajudava a passar o dedo pelo escrito em braile, enquanto ele a encarava nos olhos incrivelmente azuis, que não denunciavam em nenhum aspecto a cegueira da garota, a não ser pelo olhar sempre vago, indefinido —. Eles guiam o seu dedo à próxima palavra, além de ler as palavras de amor você pode senti-las, está praticamente dentro da história — a menina não podia explicar, mas fato é que ela precisava tocá-lo novamente, arrumou naquilo um pretexto para sentir a sua mão.
O calor que emanava do toque de Gabriela era agradável ao garoto, que desejava aquilo para sempre em sua vida, mas não sabia como prosseguir em seu objetivo.
— Primo! — Leila surpreendeu os jovens adolescentes com sua repentina aparição — Que bons ventos o trazem aqui? — olhando para a garota que acompanhava Gustavo ela abriu um sorriso, logo entendeu tudo, deu uma piscadela ao primo que riu envergonhado — Não vai me apresentar essa belezura? — Leila, simpática, envolveu  Gabriela em um abraço, entusiasmando a garota ao seu respeito.
— E-essa é minha amiga — ele gaguejou no começo, mas retomou o controle sobre a voz —, Gabriela.
— Tão bonita quanto o nome — elogiou.
— Obrigada — a menina respondeu tendo o mesmo sorriso acanhado de sempre —. E você, quem é?
— Leila, a melhor prima do seu amigo.
— Muito convencida — o rapaz brincou, de fato aquela era a prima que ele mais gostava.
— O que fazem aqui? — a extrovertida indagou.
— Compras — Gustavo revirou os olhos, sua resposta provocou o riso da companheira —. Lendo, o que mais seria?
— Sei... — Leila deu uma nova piscada para o primo, que naquela hora só faltou agradecer pela amiga não enxergar, poderia ter passado uma grande saia-justa —. Bom, fiquem a vontade.
— Na verdade eu já escolhei o que ler — a garota estendeu o livro —. Acho que já estamos de saída.
— Venham comigo, então, vamos fazer o cadastro.

Gabriela se esqueceu da timidez e guardando a bengala na bolsa que levava se deixou guiar por Gustavo, ambos deixaram a biblioteca como um verdadeiro casal apaixonado, próximos um do outro, de mãos dadas. Enquanto caminhavam a garota teceu elogios à Leila, gostou de conhecer a moça, amou o modo como fora tratada. Também se mostrou animada por ter pisado pela primeira vez em uma biblioteca.
— Obrigada — mesmo sem enxergar a menina acertou o beijo na bochecha do jovem adolescente, que na  mesma hora corou, passou a mão pela região do beijo e abriu um sorriso bobo —. Obrigada por estar sendo um amigo maravilhoso!
— Não precisa me agradecer — ele percebeu como a amiga ficava ainda mais bonita quando feliz —. Sinto-me lisonjeado pela sua companhia.
Os bons amigos passaram em frente a uma sorveteria, querendo mimar ainda mais Gabriela, Gustavo pediu que a garota o esperasse por alguns segundos, logo ele voltou com o sorvete de casquinha em mãos. Ajudando-a a pegá-lo ele não pôde segurar a risada quando a menina se lambuzou.
— Deixa de ser bobo — ela não sabia o que fazer.
— Não se mexa — ele abriu a câmera do celular e tirou uma foto —. Agora sim.
— Você gravou isso? — a adolescente se preocupou.
— Não tenha medo, essa foto será somente minha — aproximando-se da garota tomou outra atitude —. Vou ajudá-la a se limpar.
Ela estava com um bigodinho de sorvete e alguns respingos na bochecha, com as pontas do dedo o garoto limpou seu rosto, mas ao encostar próximo aos lábios avermelhados os observou com maior atenção deixando, ainda que sem perceber, que seu rosto se aproximasse do de Gabriela.

No próximo capítulo:

Mas uma fraqueza repentina e intensa tomou o corpo do garoto que, sentindo a cabeça girar, sofreu um apagão, caiu no médio da quadra, desacordado.

De segunda a sexta, às 19h30!

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