[WebSérie] Romântico Anônimo - Capítulo 06



Capítulo 06


Ninguém está preparado para um desafio, não completamente, sempre existe um receio por trás da coragem, dúvidas por trás da certeza, um sentimento de incapacidade. O problema não era com Gustavo, mas ele via como se fosse, o desafio era também dele, o obstáculo estava também em seu caminho.
— Não precisa dizer que sente muito e nem que é uma pena — ainda de cabeça baixa Isaque percebeu o silêncio do amigo e começou sua declaração — Eu sou um doente e nada vai mudar isso.
— Acha mesmo que seria tão frio ao ponto de apenas dizer que sinto muito e que tudo é uma pena? — ver a tristeza profunda que afogava aquele que tinha por irmão entristeceu ainda mais o futuro pediatra, aquele que sempre se importava com os amigos, aquele que não media esforços para ajudá-los — Você não é apenas mais um dos meus tantos amigos, é simplesmente o melhor, o irmão que eu sempre quis ter... Eu não apenas sinto muito como prometo estar ao seu lado em tudo o que precisar.
— Não seja idiota — Isaque ergueu os olhos tendo no rosto um sorriso forçado —. Ouviu o que eu disse? Não é um resfriado passageiro, é um câncer! Sabe quais são as chances de vida que tenho? As mais nulas possíveis. Não perca o seu tempo com alguém que cedo ou tarde estará esticado em uma urna, pronto para ser devorado pela terra.
— Desde quando passar cada momento, bom ou mau, com aqueles que gostamos é perda de tempo? — Gustavo encarava os olhos entristecidos, ofuscados pela angústia — E se fosse o contrário? E se eu fosse o que estivesse doente? Você me daria às costas? Iria simplesmente jogar fora anos de convivência? Seja sincero e me responda.
O garoto deixou as lágrimas escaparem com mais força, olhando para as próprias mãos que se apertavam aflitas respondeu:
— É claro que não.
— Então não seja tão duto consigo mesmo e deixe as pessoas que o ama, que se importam com você o ajudarem — apoiando a mão no ombro do melancólico, o bom amigo concluiu: — Eu sempre estarei aqui.
— Não é tão simples e nem tão fácil quanto parece — Isaque resolveu colocar para fora aquilo que o consumia por dentro —. Eu não consigo ver solução, eu não consigo alimentar esperanças — voltando os olhos para aquele que era um verdadeiro parceiro continuou: — Muitas foram as pessoas que acreditaram nas palavras de consolo daqueles que as rodeavam e não alcançaram o milagre. Quantos sonhos foram apagados? Quantas histórias tiveram o seu ponto final decretado? Quanta fé que não adiantou coisa alguma? Como eu posso viver sabendo que tem algo dentro de mim me devorando, destruindo-me? E eu também não posso prejudicar outras pessoas, não quero obrigá-las a me ouvirem, a me ajudarem...
— E não precisa. Quem é de verdade o ouvirá e o ajudará sem que você suplique, estarão a todo momento querendo o seu bem. Esqueça isso de que não se salvará, a medicina está avançada, os recursos são outros, mas depende também da sua fé, da sua vontade de viver, do seu desejo de vencer... Não pode se entregar dessa maneira toda vez que um problema se apresentar, não pode simplesmente ignorar as tantas soluções por causa do medo, da angústia. Se você não tem força suficiente, eu posso lhe ajudar, seus pais podem ajudá-lo, você não está sozinho, tem a mim e tem a eles.
— Mas e os outros? Não quero que sintam pena, que mostrem compaixão e nem que me vejam com indiferença, desprezando-me, como se eu estivesse perdido a própria sorte.
— Isso depende de você, mostre que está lidando com o desafio tranquilamente, que tudo está sob controle, que acredita na solução.
Isaque apenas assentiu, sem nada dizer. Mas Gustavo ainda queria provar que sua amizade e suas palavras eram verdadeiras.
— Além de tudo isso um lorde precisa da companhia do seu conselheiro, eu preciso de você.
O garoto abatido dessa vez abriu um sorriso espontâneo, largo e alegre, abraçou aquele que crescera com ele, aquele que era de fato um irmão, poderia ser não de sangue, mas do coração.
— Obrigado, lorde Gustavo, por tudo!

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“[...] Foi bom conhecê-la... Mas pense no que eu falei, o Gustavo é perfeito, mas você tem algum defeito...”

Gabriela estava se deixando levar pelas palavras de Júlia, as dúvidas estavam voltando, o sentimento por uma culpa que não deveria existir começava a se apresentar. Em seus pensamentos as indagações surgiam, talvez não fosse certo ela ser amiga de alguém como Gustavo, talvez ela estivesse  se prestando ao papel de ridícula, talvez ela apenas fosse um atraso na vida do garoto, afinal de contas ela não enxergava, possuía mesmo um defeito, algo com o que se envergonhar. Tudo isso era verdade, apenas para a sua mente.
Mas a garota se lembrou do sentimental bilhete que recebera, das agradáveis palavras grafadas no papel, do trabalho que o seu autor teve em se preocupar ao escrevê-las em braile e do perfume marcante, o qual ela não enjoava de sentir.

Apenas queria que soubesse de uma coisa: é a mais bela das garotas dessa escola.
Romântico Anônimo

Ela não se cansava de repetir aquelas palavras, que pareciam tocar o seu coração, abrasar a sua alma e obrigá-la a sorrir além de causarem um frio na barriga, algo nunca sentido antes.
— Filha? Posso entrar? — Laura, sua mãe, bateu calmamente na porta do quarto.
— Claro — a menina logo escondeu o bilhete —. Está tudo bem?
— Tudo ótimo e vejo que com você melhor ainda — a enfermeira se sentou ao lado da filha, logo percebeu o semblante irradiante —. Nem preciso perguntar se está gostando do colégio, a resposta o seu rosto já dá.
— É mesmo diferente de tudo aquilo que pensei... As pessoas são ótimas, os professores incríveis, só tenho o que agradecer por termos mudado para cá.
— Tanto entusiasmo não teria alguém como motivo? — a mãe suspeitou.
— Alguém? Do que está falando? — o sorriso tímido surgiu no rosto de Gabriela, o sorriso que Laura conhecia bem.
— Você sabe, minha querida, e eu sei que é absolutamente normal essas coisas acontecerem... Quero que confie em mim para dizer os seus segredos, além de mãe e filha sempre fomos grandes amigas.
— Existe um alguém oculto — a garoto decidiu se abrir, afinal se não confiasse em sua mãe para revelar os segredos do coração em quem mais poderia confiar?
— Alguém oculto? — a mulher riu divertida, pensou que fosse alguma brincadeira —. Ajude-me a entender mais essa novidade da juventude de hoje.
— Estou falando disso — a menina tirou o bilhete das costas —. Quer que eu leia?
— Se puder.
— Apenas quero que saiba de uma coisa: é a mais bela das garotas dessa escola — Gabriela leu cada palavra como se fosse a primeira vez.
— Que fofo, minha querida — a enfermeira apertou a amada filha em um abraço animado —. Quem é o rapaz das antigas?
— Esse é o problema, ele não tem nome.
— Nem uma pista?
Passeando os dedos pelos pontinhos salientes a garota respondeu sorridente:
— Romântico Anônimo, é essa a assinatura.
— Minha princesa está crescendo — a mulher passeou a mão pelo delicado rosto da menina —. Apenas quero que conte comigo para tudo e não me esconda nada.
— Esconder o quê? Confio cegamente em você – Gabriela fez o trocadilho, provocando risos.

<<>> 

No caminho de volta para casa, enquanto caminhava com os fones de ouvido no volume máximo, Gustavo foi surpreendido pela aparição de uma pessoa que, embora estudasse na mesma sala que ele e no passo lhe despertara o seu interesse, agora era indiferente estar ou não presente.
— Gu! — Júlia abraçou o garoto beijando-o no rosto como se fossem amigos íntimos de longa data —. Que surpresa agradável!
— Ah! Oi! — o rapaz se retraiu.
– Será que podemos conversar? — a garota alisava o cabelo querendo chamar a atenção.
– O que você precisa saber? É sobre alguma tarefa?
— No meio da rua não, bobo — Júlia segurou o braço de Gustavo, que se afastou causando um clima estranho entre eles —. Que tal irmos à sorveteria? – ela insistiu sugerindo.
— Sinto muito, mas não posso, tenho algumas coisas para resolver, estudar um pouco para o vestibular...
— Vestibular? — ela o interrompeu — Ainda estamos no começo do ano e você já pensa em vestibular? Para com isso, vamos aproveitar a vida!
— Se você não se interessa pelos estudos eu apenas lamento, mas essa é uma das prioridades em minha vida — ele não queria parecer grosseiro, mas também não controlou as palavras.
Porém Júlia não desistiria tão fácil das suas intenções, era determinada em suas ambições.
— Então eu falo aqui mesmo o que há tanto tempo venho guardando. Aquela história de namoro ainda está em pé?
Antes de responder o futuro pediatra pensou um pouco, não queria ofender.
— Eu sinto muito, mas não, não está.
— Não está? — ela não se conformaria — Como assim não está? Ninguém deixa de achar outra pessoa bonita do nada.
— Eu sim — as palavras simplesmente saíram.
— Está me chamando de feia?! — começou o vitimismo.
— Eu não disse isso...
— Mas é o que pareceu! Sabe de uma coisa? Vá lá perder tempo com aquela ceda, uma defeituosa! — na hora da raiva é difícil encontrar alguém que se controle, no entanto algumas coisas não deveriam ser ditas, podem marcar para sempre.
— O que você disse?! — ele não admitiria um absurdo tão grande.

No próximo capítulo:
Rindo desacreditado Gustavo retrucou:

— Acha mesmo que sou capaz de gostar de pessoas como você? Com o seu modo de agir e ver as coisas? Gabriela é simplesmente uma amiga, mas com certeza eu namoraria com ela, mesmo sendo uma defeituosa segundo as suas palavras, sabe por quê? Porque ela é ainda mais linda por dentro, uma beleza que você não possui e que por certo jamais terá.

De segunda a sexta, às 19h30!

Comentários

  1. Acho que teremos aqui um grande escritor. ..Parabéns meu jovem sonhador ..seu futuro será brilhante. .que Deus te abençoe muito. ..história sensacional. ..

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  2. Acho que teremos aqui um grande escritor. ..Parabéns meu jovem sonhador ..seu futuro será brilhante. .que Deus te abençoe muito. ..história sensacional. ..

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