[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 18



Surpresa


“Surpresas fazem parte da vida de qualquer um, ela se apresenta sem avisar e em diferentes formas. O problema é que nem sempre nos agrada e daí tem início uma guerra”.

Sentindo o sangue esquentar e correr mais rápido pelas veias Verônica foi ríspida na recepção:
— O que faz aqui? Quem autorizou a sua entrada?!
— Ela está comigo — vendo que o perigo já não batia mais à porta Letícia se encheu de coragem ao enfrentar a tão temida mulher.
— Não precisam dizer mais nada, já entendi tudo — a veterana estilista riu descrente —. Vai abandonar todo esse luxo, tudo o que conquistou aqui por uma proposta incerta...
— Proposta incerta? — Renata precisava defender os seus negócios —. Todos estão vendo que a Morgan Modas está ultrapassada há muito tempo, espertos serão aqueles que partirem para o meu lado.
— O lado mais fraco? — Verônica gargalhou debochadamente —. Podem escrever, a Button Modas será derrubada!
— E quem será o causador? Você? A minha empresa é imbatível, basta começarmos pegar pesado e a sua nunca mais será a mesma, talvez seja esquecida para sempre!
— Você não me conhece, não pode nem imaginar do que sou capaz, destruir todo o seu bando será a tarefa mais fácil de toda a minha vida.
— Eu imagino... Tem experiência.
Com desconfianças rondando sua mente a senhora Morgan logo questionou a afirmação da rival:
— Como pode dizer que tenho experiência? Quem é você Renata Button? Por acaso já nos conhecemos de outros carnavais?
Sentindo pavor pela forma prepotente com que Verônica a encarava, Renata não sabia  que responder, por alguns segundos o silêncio foi a sua defesa, mas logo as desculpas apareceram.
— Foi a principal causadora do meu acidente e, além disso, estava ameaçando sua própria modelo com um canivete... O que quer que eu pense?
— Não quero que pense, quero que tenha certeza de que o meu terreno é repleto de minas, um passo em falso e... — a mulher não terminou, mas sua perversa e horripilante risada denunciava qual era a sua ideia.
— Já não temos mais o que fazer... Minha modelo e eu temos muito que preparar.
— Letícia, sua ingratidão me dói mais que um tapa na face — Verônica decidiu dizer suas últimas palavras, ainda achava que poderia colocar medo na garota —. Porém é reconfortante saber que assistirei sua decadência de melhor modelo do país para a esquecida... Acha mesmo que manterá todo esse prestígio? A Button Modas já tem sua top model, vai mesmo correr o risco de ir para a geladeira?
Irritada com tamanha astúcia que sua inimiga possuía Renata virou-se para a estilista e deu sua resposta com a satisfação no rosto:
— Não consegue notar a minha estratégia? Suas duas principais modelos agora são minhas, ambas donas de um público fiel. Se até elas vieram para o meu time por que as clientes não viriam? Pense um pouco, querida...
A sós em sua sala Verônica desequilibrou-se, com tamanha fúria jogava o que via em sua frente ao chão. Seu coração irado desejava apenas uma coisa: Vingança!

*

Assim que terminou o seu expediente na Button Modas, Jéssica resolveu fazer algumas compras no shopping ao final daquela tarde de segunda-feira, afinal seu guarda-roupa agora seria repaginado com as roupas de sua nova marca.
Distraída com tudo o que via e maravilhada até mesmo com as peças que ainda não havia conhecido a modelo não percebeu que novamente era seguida, distração sempre fora seu maior inimigo. Repleta de sacolas enquanto passeava pelo estacionamento do lugar Jéssica foi pega de surpresa por alguém que segurou forte em seu braço.
— O que está acontecendo? Aqui tem policiais, basta um grito meu e...
— Calma, eu preciso conversar com você — o homem a interrompeu fazendo o seu pedido —. Será que não consegue se lembrar de mim?
Observando com atenção aquele homem alto que tinha todos os cabelos compridos e judiados, deixando claro o a falta de um tratamento, a barba que passava a ideia de que há muito tempo não recebia a visita de um barbeador e os olhos fundos, a modelo teve uma triste lembrança, a qual pressionou seu peito, formou um nó em sua garganta.
— Eduardo...
— Sim, sou eu. Surpresa em me ver?
— Muito... Depois de cinco anos pensei que nunca mais o veria.
— Se eu disse que me arrependo a cada segundo pelo que fiz você acreditaria? — ele esperou a resposta, mas como não a obteve continuou com seu discurso —. Acreditaria se eu dissesse que andei muito a sua procura a fim de alcançar o seu perdão? Acreditaria que conviver com a sua ausência me mostrou que eu a amava sim e que fui um tolo ao tirá-la da minha vida? — seus olhos estavam avermelhados —. Não podem imaginar o quanto eu queria reencontrá-la e dizer tudo o que sentia — uma forte tosse o interrompeu, assustando a mulher —, mostrar o que significa para mim.
A decepção sofrida por Jéssica foi pior que o medo de morrer por conta da doença pela qual passara. Durante o seu tratamento foi a decepção por descobrir um falso amor que dificultou muito as coisas, a dor da alma era insuportável.
Aquela mesma decepção, ainda que ironicamente, deu-lhe forças para combater o cansaço, o desânimo, dar a volta por cima e mostrar o quanto é bom ser feliz, o quanto é bom lutar pela vida. Agora, já recuperada e de volta ao sucesso, ela estava cara a cara com aquele que lhe causou tanto sofrimento tentando convencê-la de seu arrependimento. Estava sendo sincero?
— Sabe que não acredito em sequer uma palavra dita — Jéssica era ríspida, entrou em seu modo de autodefesa —. Enquanto continuava aparecendo na mídia por ser o melhor jogador do país esbanjando saúde, amigos, mulheres e outros prazeres dessa vida eu estava na minha casa convivendo com dores. Com náuseas por conta dos tantos medicamentos e o pior: com a vontade de morrer por sentir tanto a falta de alguém que eu muito amei, por alguém que fiz tudo o que podia, por alguém a quem entreguei o meu  coração — as lágrimas caíam sentidas —. Faz ideia de como foram os meus dias? Consegue imaginar o sofrimento? Agora que estou na ativa você volta — ela riu irônica —, acha mesmo que acredito na sua sinceridade? Olhe para você mesmo, sua repentina aparição tem coisa por trás: interesse!
O coração daquele homem havia sido transformado, era sincero. Seu desafio agora seria provar isso e reconquistar alguém que tanto amou antes que fosse tarde.
— A sua falta causou desmotivação para a minha batalha, eu já não tinha razão para continuar sendo quem era. O alívio para a minha mente foi se refugiar em vícios, cada vez piores. Minha carreira acabou por conta disso, todo o meu prestígio se findou, aqueles que me rodeavam simplesmente deram as costas, se ainda tenho uma casa foi porque meus pais a cederam... — a tosse voltou. — A minha tolice acabou com uma vida inteira de trabalho, de ganância, de exibicionismo. Destruiu-me.
É isso o que a desilusão causa nos corações iludidos: desconfiança. Não se acredita em mais ninguém, nunca se está pronto para novas histórias, sempre as vive pensando no pior.
Jéssica não queria acreditar no que ouvira, não podia acreditar. Tudo o que passou ao longo dos dias e semanas sofridos a marcou profundamente, seriam sombras que a acompanhariam pela eternidade.
— A única coisa que posso fazer é lamentar. Não acredito mais em você, não posso confiar novamente em alguém que disse não me amar, que apenas me usava para se exibir perante o mundo. Continue a sua vida esquecendo que um dia me conheceu.
Já de costas a modelo escutou as últimas palavras:
— Não vou desistir tão fácil da única coisa que pode me devolver a vontade de viver.
Uma lágrima mais intensa correu pelo rosto da mulher. Seu lado emotivo pedia por uma nova chance, pedia para que ela voltasse, o abraçasse, o acolhesse, porém seu lado racional falou mais alto: desprezo, era isso o que ele merecia.

*

Já era de madrugada.
Certificando-se de que o filho realmente dormia e que estava de fato sem nenhum funcionário na casa Verônica abriu a enorme porta da mansão e guiou os seus convidados ao então secreto porão. Todos pararam diante da mulher em um gesto de respeito, ela era venerada por aqueles malfeitores.
— O material que vocês procuram está empacotado em cada corredor. Peguem e distribuam com discrição, o nosso caixa precisa ser reforçado — a estilista ordenou.
— E quanto ao banana? O matamos? — Egídio, que era um dos integrantes daquela máfia, indagou malicioso.

— Ainda não... — o olhar da senhora Morgan denunciava que um plano rondava sua mente —. Pode ser que eu ainda precise de isca, sinto que o nosso peixe está bem próximo!

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No próximo capítulo:

— Ideias de jovens revolucionários nunca deram certo — Egídio tinha olhar de vitória sobre Jonas —, eles sempre perderam, apanharam, foram excluídos e até mesmo... mortos!

De segunda à sexta, às 19h30!

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