[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 08



Encontro de Corações


“A maioria das coisas que existem tem sua outra metade, seu outro par, aquilo que as complete. O mesmo ocorre com o coração: o seu, o meu o de alguém podem ser um só!”

Jonas não conseguia entender o que somente a presença daquela mulher fazia consigo, o rapaz apenas concluía que era um sentimento nunca sentido antes.
Renata, mais sensitiva, descobriu no perfume daquele que estava ao seu lado o melhor cheiro que já havia sentido em toda a sua vida, o ritmo descompassado do seu coração ficaria ainda pior ao ouvir a voz daquele homem.
— Mora aqui? — dentre tantas perguntas que poderiam iniciar um diálogo aquela foi a que Jonas julgou mais própria.
— Na verdade cheguei hoje. Sou Renata Button, deve ter ouvido falar sobre mim.
— Ah! Uma das melhores estilistas que o mundo tem — naquela hora os olhos do consultor realmente se abriram e sua mente entendeu o que acontecia: estava se apaixonando. Dentre tantas mulheres seu coração parecia ter escolhido alguém que o poderia ter como concorrente.
— É o que dizem — a mulher respondeu com um discreto sorriso —. Penso que mora aqui.
— Nasci nessa cidade e construi minha vida aqui. Já fez amigos?
— É a primeira pessoa que estou conversando — aquelas palavras fizeram o rapaz se sentir único —. Também aprecia a natureza?
— Para ser sincero não costumo parar e observar o pôr-do-sol como fiz hoje, mas minha alma necessitava disso, dúvidas cruéis perturbavam os meus pensamentos.
— Fez bem em procurar um lugar como esse para se refugiar, é daqui que tiramos respostas tão escondidas.
Perdido no delicado olhar da mulher mais bela que vira em seus dias Jonas resolveu abrir o seu coração, não temendo a precocidade das sensações:
— Terminei meu namoro, porém a incerteza me tomou.
— A ama? — olhando para algum ponto qualquer Renata fez sua pergunta.
— Foi por não amá-la que decidi isso — o rapaz tentou procurar o foco do olhar da estilista —. Iríamos nos casar, era o que ela mais queria, mas estaríamos cometendo um engano e bem sabemos da gravidade. Coisas como essas devem ser feitas com total reciprocidade, não basta apenas um querer.
— Se me permite, acho que foi sábio em sua escolha... O tempo passa, nada o suporta, nada o vence, mas o amor maduro, certeiro, verdadeiro sim. O tempo poderia ser cruel a vocês, poderia causar grandes feridas.
— Feridas dolorosas... — ele disse vagamente.
— Feridas incuráveis... — ela continuou.
— Feridas mortais.
Ao notarem que se completavam ambos pararam e deixaram que seus olhos se encontrassem e em seus rostos um sorriso tímido surgisse.
— O amor de sua vida me parece ter grande sorte, suas palavras são tão... dóceis — Jonas fez uma indireta, queria saber se poderia alimentar esperanças em seu coração.
— Amor de minha vida? Se existe o desconheço — Renata riu singelamente —. Falando sério nunca tive um amor.
— Coração dilacerado? — o rapaz se interessou pela história daquela que aos poucos roubava os seus sentidos —. Se me achar digno de ouvir seu desabafo, por favor, o faça.
Mãos suavam, pernas tremiam, o coração ardia, a mente imaginava finais felizes, a voz precisava enfrentar alguns obstáculos para soar e sua alma clamava dentro de si por um pouco de afeto, um pouco de carinho, um pouco de amor. Renata nunca se permitiu a tal sentimento, pelo menos não daquela forma como estava prestes a se entregar, o motivo era o medo: o medo da dor.
A estilista sempre recusou a aproximação de alguém disposto a lhe amar, mas com aquela pessoa estava sendo diferente, o encantamento era tamanho que as palavras começaram a sair por vontade própria: agora a alma controlava a carne.
— Nunca fui capaz de amar, não como uma mulher sedenta por atenção, por proteção. De uma forma cruel cresci me privando de sentimentos, as pessoas saíam da minha vida sem ao menos dizerem adeus. Para que arriscar-me mais vezes? Não vejo o amor como os poetas o veem, o vejo como um caos, a desordem.
— Por ironia esses mesmos poetas apregoam o amor como um caos que em sua frágil arquitetura se arruma. Concordo com você, é um sentimento tão confuso, tão enigmático, tão desordenado, mas por existir apenas sua metade dentro de nós.
— O que quer dizer — ela se encantou pelo discurso, queria ouvir mais.
— A outra metade precisa ser encontrada. Quando isso acontece ele se completa, deixa de ser confuso para ser orientador, deixa de ser enigmático para se clarear e arruma a nossa vida, organiza o bagunçado de emoções que impera dentro de nós.
— De onde tirou tais palavras? — a estilista se maravilhou a cada vírgula.
— Brotaram dos olhos que me olham — o consultor não se intimidou, aquela frase era como uma declaração.
Renata não soube o que dizer, desviou os seus olhos para a grama, talvez seguir os rumos do coração não fosse uma boa idéia.
O casal ali continuou em um silêncio que soava a suspense. As primeiras estrelas despontavam no céu, a noite anunciava com sua leve brisa a sua chegada. Angustiado, Jonas encontrou a mão de Renata repousada sobre o banco e repousou a sua sobre a da mulher.
— Acho que preciso ir, alguns trabalhos precisam ser terminados — ele disse.
— Espera — a estilista pediu assim que ele se levantou —. Gostei muito da nossa conversa, quero muito vê-lo novamente.
— Quando quiser — o rapaz anotou seu número em um papel e o entregou à Renata —. Também gostei muito de conhecê-la, quero muito que faça parte da minha vida.
— Acho que o deixarei entrar na minha, na esperança de que não seja como as outras pessoas.
Jonas percebeu que tinha chances, sua única obrigação seria investir naquilo.
— Eu juro que não o sou — seu olhar prendeu o da mulher.
— Você é diferente... Não entendo...
— Certas coisas não foram feitas para que fossem compreendidas, mas para que fossem vividas.
Pronto para selar os lábios o rapaz foi frustrado ao perceber que Renata virara o rosto, mas o sorriso da moça foi suficiente para a sua alegria.
— A propósito, como se chama?
— Jonas — ele pensou antes de dizer o sobrenome, preferiu usar o de seu falecido pai —. Jonas Woicik.
— Lindo nome — a estilista sorriu.
Ouvir aquilo incendiou o ser do rapaz de felicidade, finalmente havia encontrado o amor de sua vida. Um pouco cedo para dizer aquilo? O futuro dirá...

*

Um coração amargurado cria dentro de si rancor, ódio, desejo por vingança. Atitudes tomadas na hora da raiva, da dor, da decepção podem ser as mais erradas possíveis, quantas pessoas não choram por isso?
Letícia agiu de maneira diferente, enfrentava aquela situação mostrando total controle, o que Verônica não conseguia entender. Arrumando suas coisas para ir embora da mansão da que seria sua sogra, a modelo foi surpreendida pela renomada estilista, que sempre a dominou.
— Vai mesmo desistir?
— Não insistir com o impossível não é desistir, é ser sensato. Aprendi que no amor a coisa funciona quando ele existe nos dois lados.
— Seu pensamento é de um perdedor — a senhora Morgan não poupou agressão —. E eu odeio perdedores.
— Entenda que o seu filho não me quer. Somos todos adultos o suficiente para entendermos que cada um é livre para tomar suas próprias decisões. Antes de amar o Jonas eu também amo a mim, sofrer por algo não correspondido nunca valerá a pena.
— Você quase se matou — a mulher revirou os olhos.
— Quando não se sabe o que fazer é comum atitudes drásticas serem tomadas.
— Poderíamos ao menos fingir uma gravidez. O que me diz?
— Não poderei viver o resto dos meus dias sabendo que sou a infelicidade de alguém... Sinto muito.
— Você tem muita sorte — Verônica começou a se irritar, odiava quando as coisas não saíam da sua maneira —. Agradeça a Deus por ter lhe dado um dom para ser modelo, caso contrário já estaria na rua.
— Coloque-se em meu lugar. Gostaria de amar sem se amada?

— Amor é fantasia, um sentimento banal que nos torna bobos de nós mesmos — os olhos frios da estilista penetravam os da modelo —. Pode ir, tome a decisão que quiser, mas tendo em mente tudo o que me deve, o quanto me pertence!

~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Nome poderoso, nome de prestígio, nome reconhecido. Nome que poderia salvar a tanta gente, mas que despertou a perversidade em um coração tão potente. Poderá esse nome salvar a mim? Poderá esse nome salvar a todos nós? Morgan, o nome do bem corrompido, o nome da destruição!

De segunda à sexta, às 19h30!

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