[WebSérie] Sombras do Passado - Capítulo 02




Anjos

“Certas pessoas são frias como são pelas circunstâncias, mas se alguém de bom coração lhes encontrar revelam o que verdadeiramente são: anjos que vivem em nossas vidas”.

Durante todo o resto da tarde Renata esteve amarrada em uma cadeira enquanto o homem, sentado a sua frente, analisava seu revólver ameaçando disparar a qualquer momento.
— Acredito que tenha conseguido tirar a sua tia do sério, não sabia que é perigoso ir contra Verônica?
— Ela matou os meus pais — a menina irradiava uma tristeza profunda em seu rosto, seus olhos eram fundos.
— Essa mulher é mesmo assim: fria.
— Vai me matar também?
— Eu não sei... – o homem não esperava por aquilo, nunca imaginou que seria obrigado a fazer algo do tipo —. Nunca tive que lidar com criaturinhas fofinhas, mas eu sei que elas crescem e se tornam criaturas vagas de algum sentimento.
— Por favor, deixe-me fugir, ninguém irá descobrir!
— Lamento, mas isso não será possível... Há muito tempo perdi pessoas que amava, sua tia fez isso comigo. Um belo dia estive na mira daquela mulher, se quiser continuar vivo preciso obedecê-la em tudo.
— Fuja comigo — a pobre criança estava determinada a se salvar.
— O quê?
— Isso mesmo, fuja comigo, duvido que ela nos encontre.
— Para uma criança tão nova você é bem esperta...
— Não é isso o que as pessoas fazem quando estão em perigo? Elas não fogem?
— Sim... Elas fogem... – o homem se levantou da cadeira com um brilho no olhar, viu naquela ideia a sua liberdade —. Vamos agora mesmo!
As condições climáticas naquela noite não eram as melhores. A chuva era intensa, as trovoadas incansáveis e os ventos oprimiam quem os enfrentasse. Renata e aquele homem não tinham outra opção a não ser enfrentar a tempestade, logo que o novo dia se iniciasse Verônica se certificaria de que seu pedido fora atendido, eles precisavam estar bem longe dali. Antes de irem à luta a garota perguntou com o jeito infantil?
— Qual o seu nome?
— Raul, pode me chamar de Raul. Preparada?
— Sim!
Raul tinha um bom coração, mas o seu envolvimento com a pessoa errada lhe custou a bondade, porém aquela criança estava predestinada a ajudá-lo na recuperação de uma virtude tão nobre.
Como um pai protege o seu filho da chuva Raul protegia a menina, que a cada trovão se apertava ainda mais em seu novo amigo. Logo os dois se acharam na rodovia, ali a nova etapa de suas vidas começava.

[Dias mais tarde...]
Com a ajuda de diversos caminhoneiros os fugitivos se viram no Ceará, em uma das mais belas praias de Fortaleza, prontos para viver uma nova vida.
— Onde vamos ficar? — a garota perguntou com o jeito curioso que sempre teve.
— Não temos dinheiro, minha pequena, vamos procurar um lugar escondido próximo ao mar e ali moraremos.
— Já está bom, seremos muito felizes!
Após ter acomodado Renata em um lugar que muito se assemelhava a uma caverna Raul saiu prometendo voltar com comida, o que cumpriu.
— Não disse que está sem dinheiro? — a menina estranhou.
— Roubei – o homem respondeu sem mais controle sobre a fome.
— Mas é errado.
— Eu sei, então nunca faça isso.
— Você é o meu maior exemplo agora, sabia?
Naquele momento Raul sentiu em peso em sua consciência, sabia que a garota estava certa, mas o que ele poderia fazer?
— Amanhã procuro trabalho, não se preocupe.
— Vou junto.
— Você é uma criança, não pode.
— Mas eu quero... É meu amigo agora, temos que sempre estar juntos.
Um nó se formou na garganta do durão que durante grande parte da vida viveu solitário, logo ele tratou em mudar o assunto:
— Então coma e mantenha a boca ocupada.
— Está zangado?
Mordendo um pedaço de pão Raul deu um sorriso denunciando a sua resposta.
A noite caiu. Sobre o som do mar Renata se colocou na entrada da caverna a fim de aproveitar a luz do luar e continuar os seus desenhos.
— Onde achou isso? – o homem se referia ao pequeno caderno e ao lápis.
— Sempre guardei no bolso.
— Com quem aprendeu a desenhar tão bem?
— Meus pais, eles que me ensinaram. Meu sonho era trabalhar com eles na empresa, criar as roupas que todos usam, mas agora sei que isso não vai mais acontecer.
— Pequena, prometo que vou ajudá-la, seu sonho pode sim se realizar.
— Impossível... Eles morreram...
— Você pode criar a sua própria empresa.
— Será? — um brilho apareceu nos olhos da garota.
— Prometo.
Sem pensar antes aquele pequeno ser humano deu um forte abraço em seu protetor mostrando a sua gratidão.
— Obrigado por me ajudar...
Segurando cada vez mais o choro aquele homem barbudo, mal vestido e que tinha uma pose de malvado, retribuiu o abraço da indefesa criança.

[14 de julho de 1996.]
Ao longo dos anos Raul trabalhou com os muitos proprietários de vários quiosques pelas praias de Fortaleza, seu empenho era tanto que ele acabara conquistando a confiança de um dos seus maiores patrões, que ao morrer deixou o comércio nas mãos daquele homem.
Fazia apenas um mês que os fugitivos tinham aquele quiosque, mas a freguesia já havia aumentando consideravelmente. Sentada no balcão Renata fazia os seus desenhos como de costume quando uma mulher se maravilhou pelo que estava vendo.
— Onde aprendeu?
— Meus pais me ensinaram — a garota respondeu sem tirar os olhos do papel.
— Você poderia se tornar uma grande estilista, tem talento.
— Acha mesmo? — a menina ergueu os seus olhos.
— Com certeza. Onde estão os seus pais?
— Eles... — a lembrança dos pais ainda a afligia —. Eles morreram...
— Lamento muito — a mulher sentiu uma pontada de culpa por cutucar um assunto que era visivelmente delicado —. Quem cuida de você?
— O Raul.
— Será que posso falar com ele?
— Se puder esperá-lo servir as mesas, sim.
— Está bem.
Em pouco instante Raul se dispôs a falar com a mulher, que tinha uma importante proposta.
— Sei que poderá ser um tanto doloroso o que vou dizer e até mesmo estranho, mas é para o bem da menina. Meu marido e eu somos estilistas no exterior e eu vi que essa criança tem um dom incomum. Quero propor que ela venha morar comigo, farei o possível para que esse talento seja aperfeiçoado.
— Eu não quero! — a garota havia construído um laço afetivo com aquele que a ajudara e dificilmente aceitaria se separar do mesmo.
— Prometo que não farei nenhum mal a você, apenas quero ajudá-la.
— Não quero ficar longe do meu amigo! Já decidi!
— Renata, venha comigo, precisamos conversar — o homem agora bem arrumado, com aparência mais jovem, chamou a garota.
Raul também se sentia afligido em saber que estaria longe daquela criança, pela qual ele criara um enorme carinho, mas ele se lembrou da promessa que havia feito, aquela era a oportunidade para que Renata realizasse os seus sonhos.
— Minha pequena, aceite, vá com essa mulher! Eu não posso fazer muita coisa por você, mas sei que ela pode.
— Eu não quero te perder — a menina o abraçou enquanto as lágrimas corriam sentidas.
— Se você gosta do seu amigo de verdade vá com aquela mulher sem olhar para trás, lute por aquilo que você tanto deseja, seja forte!
— Eu prometo que nunca vou me esquecer de você e que irei voltar para buscá-lo.

— Tudo bem, minha pequena, agora vá, seja feliz! Saiba que eu te amo!

~~~~~~~~~~~
No próximo capítulo:

— Entre os meus amigos você era muito desejada, sua beleza fascinava a todos nós. Casei-me com você por ser uma garota perfeita, ajudar-me-ia a causar inveja, mas essa doença vai lhe transformar — ele não controlava as palavras e muito menos as feições, que as comprovavam —. Sabia que vai ficar feia? — aquilo já era demais.

De segunda à sexta, às 19h30!

Comentários

  1. Encantada com essa incrível web serie, você escreve muito bem, a história prende mesmo, é viciante!

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